Avançar para o conteúdo principal

Relatos de uma alma

De repente eu vim.

E da aurora virginal

Até o cume banal,

Do aceno da dor

Do orbe mirim

Da irrazão animal

Um trépido terror


Quando me vi vestido

Da linguagem 

Uma ânsia de amor

De um peito partido

Eu herdava da linhagem

Um coro de costumes

Que me tirava a inocência 

E agora a demência 

Tinha cronômetro 

Inserido


Mas deixei minha marca

Uma mancha incolor

Sem graça e odor

E para o espanto

De todos que viram

O meu espectro 

Uma vida, um espanto

Imperceptível

Em graça e torpor

Talvez tenha morrido santo.



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Momento

Com movimento flexível, inexorável  E a forma elástica dos passos Com elegância, a sua anatomia admirável  Desvia dos obstáculos e embaraços  Dança sua cernelha em compasso Lenta e de grande beleza No ritmo três por quatro Persegue impassível sua presa  Seu olhar de antiguidade Reconhecido no Império Egípcio   Apresenta um mistério inato O brilho profundo da eternidade Que só externa o frontipicio  Da altivez do lindo gato
Altitude No dia marcado para o encontro, o "Filósofo", como era conhecido o professor de artes, chegou um pouco atrasado e sua presença foi amplamente notada pelos asseclas. A comunidade tinha pouco menos de um ano e já contava com um número razoável de adeptos, se não me falhe a memória uns trinta ou trinta e dois larápios incluindo mulheres e idosos.  O galpão de encontro ficava no subúrbio da cidade de SP em um local que o próprio narrador desconhece tamanho sigilo exigido para tal demanda. A rua mais próxima do beco principal era coberta de musgo verde oriundo da garoa fina e do excesso de mal cuidado daquele antro.  Havia 30 cadeiras de bar que saíram de algum contrabando municipal. No meio dessa cambada de desocupados vale à pena destacar os três principais: o Filósofo, o Cão Farejador e o Sem Braços. Cada apelido tinha um significado prático e a pessoa que o possuía também carregava o simbolismo prático de sua ação no grupo. Não faltava criatividade para as alcunhas, d...

Devorado

Vês! Ninguém assistiu ao formidável   Enterro de sua última quimera.   Somente a Ingratidão – esta pantera –   Foi tua companheira inseparável!   Acostuma-te à lama que te espera!   O homem, que, nesta terra miserável,   Mora, entre feras, sente inevitável   Necessidade de também ser fera.    Augusto dos Anjos, Versos Íntimos Tiago não conhecia as pessoas como conhecia os papéis. Embrulhava, amassava, cheirava, dormia e respirava papel. Trabalhava à noite em uma gráfica para sustentar seus quatro filhos e sua esposa. Morava no bairro do Brás, próximo à estação de trem e trabalhava nesta gráfica no distrito de Santo André. Um leão faminto, exatamente assim poderia ser descrito Tiago quando operava a máquina de corte de papéis na gráfica. Sentia muita saudade da esposa e dos filhos, principalmente até as duas horas da madrugada, horário da ceia em que via Rita. Ah, Rita! Que arrocho de mulher! Uma morena lindíssima com olhos amendoa...