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Altitude

No dia marcado para o encontro, o "Filósofo", como era conhecido o professor de artes, chegou um pouco atrasado e sua presença foi amplamente notada pelos asseclas. A comunidade tinha pouco menos de um ano e já contava com um número razoável de adeptos, se não me falhe a memória uns trinta ou trinta e dois larápios incluindo mulheres e idosos. 

O galpão de encontro ficava no subúrbio da cidade de SP em um local que o próprio narrador desconhece tamanho sigilo exigido para tal demanda. A rua mais próxima do beco principal era coberta de musgo verde oriundo da garoa fina e do excesso de mal cuidado daquele antro. 

Havia 30 cadeiras de bar que saíram de algum contrabando municipal. No meio dessa cambada de desocupados vale à pena destacar os três principais: o Filósofo, o Cão Farejador e o Sem Braços. Cada apelido tinha um significado prático e a pessoa que o possuía também carregava o simbolismo prático de sua ação no grupo. Não faltava criatividade para as alcunhas, desde "Pele Solta" até "Soldado Terminal". Uma sociedade organizada por membros nomeados por apelidos práticos de intenção dúbia já pode levantar a suspeita do leitor acerca de seu fim. Mas voltemos ao Filósofo.

Como eu disse anteriormente, a presença do Filósofo fez a plateia se voltar para ele e perscrutar cada passo seu, a ponto de arrancar um asco do fundo de sua cara chupada. Dirigiu-se ao meio do grupo que o aguardava em círculo. Sua cadeira estava no centro. Todos calados e apenas o barulho da garoa batendo no telhado de alumínio. Ele sentou-se e disse:

"Quando o homem comeu do fruto proibido, sua mente se abriu e ele se tornou um ser manipulador da natureza. O problema é que tudo que ele possivelmente cria provém de algo que já existe antes. Logo, a sua criação é meramente um plágio cósmico do próprio Deus. Mas eu digo que a ação do homem no universo não é minúscula, conquanto sua própria existência é sabida por si mesmo, de modo que ela se valoriza, uma vez que o indivíduo sábio procura saber quem é e o que não é."

Todos olharam absortos e o Pele Solta deu uma risadinha. Todos sem exceção repudiaram sua atitude. O Filósofo levantou a cabeça e olhando para cima em um gesto de contemplação caiu para trás. O Cão Farejador falou: 

_ Um dia a conta chega para todo mundo. Já está morto. Acabou! 



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